ROBERT THOMAZ

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Atalaiada – Parte I


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A rua era uma pequena ladeira, suavemente íngreme, ocupada por belas residências. Sua casa era a menor e a mais simples de todas. Fora comprada numa singular oportunidade no mercado imobiliário local. Achava-a pequena demais e sem graça alguma, tanto que não desperdiçava seu tempo precioso em limpá-la e arrumá-la. O cotidiano dos vizinhos era mais interessante, principalmente para fofocar, sua predileta atividade. Não tinha empregada e nem queria ter embora as adorasse.
Empregada aqui em casa? Nem pensar... Elas falam demais... Vão acabar falando o que tenho e o que não tenho...
A tarde chegava e ela nem percebia. Sentada no limite superior da calçada da própria casa, passava atalaiada durante todo o dia, observando, avaliando os costumes e ações dos vizinhos. Quando os céus enraivecidos despejavam um aguaceiro em borbotões que lavavam a rua, refugiava-se na sala de estar diminuta cuja janela se debruçava sobre a calçada limosa. Apesar de a sala ser sua opção em dias chuvosos, permitindo uma boa visão do que acontecia em razoável extensão da rua, não era a que lhe agradava. Gostava de ficar exposta, de ser vista e ver os acontecimentos que configuravam a vida de cada um dos moradores para depois repassar ditos maldosos. Não importava se fazia calor ou frio, se havia sol intenso ou tempo nublado. Permanecia sentada no mesmo lugar por horas, apenas inclinado o corpo para um lado ou para outro, para aliviar o sobrepeso na área da bunda, que não era nada pequena. Às vezes ficava apoiada no muro, aderida à frieza da calçada, furtando-se de estar em seu posto somente quando a bexiga em premência a compelia a entrar e buscar o banheiro. O marido, policial aposentado, quando retornava da casa da amante não admitia comida requentada nas refeições. Homem carrancudo e tosco, quando à mesa, comia com sofreguidão sem desconfiar que a refeição fora preparada e cozida na noite anterior, momento em que a mulher infeliz abandonava a calçada pelo fato de ninguém mais transitar pela rua e por tornar-se um tanto perigoso ficar por ali durante a noite.
Seus olhos insidiosos percorriam as calçadas, fachadas e portões. Primeiro do lado oposto da rua, depois do lado onde morava. O olhar mergulhava até o início da ladeira e depois subia devagar, interrompendo sua ação vasculhadora quando ocorria o abrupto correr de um portão licenciando a saída de um vizinho ou automóvel. Então ficava a observar, a contemplar os movimentos, o colorido desperto pelas ações, a imaginar os efeitos colaterais que estariam por vir. Em seguida ficava à espreita, aguardando pacientemente a oportunidade de abordar um incauto. A vítima era assaltada na saída de casa ou na chegada, quando ia receber uma correspondência registrada ou apenas colocar o lixo para coleta semanal. Naquele instante, ela se aproximava devagar, sorrateira e num movimento felino, abordava o descuidado. Este ficava acuado entre o portão de casa e a velha gorda e de pele encarquilhada. Por educação, o vizinho constrangido submetia-se a deturpação da sinopse do último fato ocorrido na rua. Podia ser os indícios de traição de um dos maridos, a compra de um carro novo pelo morador da esquina superior ou talvez mais um suposto assédio de um motorista de van escolar a uma de suas amigas ou a ela mesma. A vítima ouvia os ditos maldosos e quando não mais aguentava, alegava estar atrasada para uma consulta médica ou era socorrida pela campainha estridente do telefone fixo que soava no interior de sua casa.
Ela olhou para cima. Nada. Olhou para baixo. Nada. Sentiu apenas uma brisa fresca a amenizar sua dor intestina. A mesma brisa noturna que costumava percorrer toda a extensão da rua. Ela lhe provocava reminiscências.
Ah... Lembro como se fosse ontem... Eu ainda jovem, de cabelos longos e bonitos, de corpo gostoso, sem essas gorduras que fogem das calças, sem essas malditas gorduras!...
Ela passou uma das mãos nos cabelos curtos e cobertos de tintura barata.
Os homens eram loucos por mim... Eles me queriam, a todo custo... Agora estou velha, gorda, de tetas caídas, a bunda enorme, ah essa bunda enorme e cheia de celulite... E banha, banha por todo o corpo... Que desgraça!
Ela era bisneta de nordestinos que construíram a capital paulista. Tinha três irmãos e três irmãs. A vida para a família numerosa sempre fora difícil, assolada pela miséria e sem perspectivas de progresso. No cotidiano, comia-se pouco num dia e menos ainda no outro. Por mais que o pai trabalhasse na construção civil e a mãe se empenhasse na lavagem de roupas e venda de doces caseiros, o dinheiro era pouco para sustentar tantos estômagos famintos. O elevar de sua estatura acompanhou o desejo irreprimível de sair da miséria. Logo que os seios cresceram e a púbis cobriu-se de pelos, foi levada para morar com uma tia em Campinas. A “tia” acolhia parentes em necessidade extrema, somente jovens meninas cujo corpo começava a vicejar. Ela foi entregue a um homem pela primeira vez em Viracopos, local apinhado de casas de prostituição. Passou a morar numa delas.
Eles adoravam meu corpo... E como eu era gostosa... Gostosa deles ficarem babando por mim... Eu não tinha barriga, a bunda era durinha e empinada, os peitos eram do tamanho de laranjas maduras e os bicos eram para cima... Ah, minha bunda, a minha bunda era um espetáculo... Titia, a fdp me ensinou de tudo o que os homens gostam na cama e eu fui uma boa aluna... Eles ficavam loucos comigo...
Ela olhou para cima. A rua estava deserta. Olhou para baixo e esboçou um leve sorriso.
Tinha velho que até me dava joia... E a vida era boa, como era boa... Eu não passava fome, não tinha que mendigar uns trocados para esse merda de homem que arrumei... Se eu soubesse que ia viver nesta merda não tinha aceitado deixar a zona... Continuava puta, ganhando bem, vivendo melhor do que nesta merda... E eu faturava bem, andava no salto... Comprava roupas caras e da moda e era invejada pelas outras vagabundas... Elas tentavam, mas não tinham fila de cliente como na porta do meu quarto... Eu nem conseguia ir para o mostruário (portão da casa)... Os homens chegavam em carrões e só queriam foder comigo... A titia me adorava, ela também faturava alto comigo...
Depois de oito anos de prostituição em São Paulo, ela foi morar em Juiz de Fora, a convite de outra prostituta que deseja ser independente e não dividir a grana com a titia. Como era uma mulher atraente, de corpo sedutor e trajando-se com luxo, passou a frequentar todos os bares e restaurantes onde a alta sociedade costumava gastar aquilo que ganhava fácil no mundo especulativo dos investimentos financeiros. Paquerava ou abordava um possível cliente. Acertava o programa, saía no carrão do ricaço, pulava sobre o abdômen flácido do crédulo, incendiando-o de prazer até a exaustão. Com a bolsa recheada, voltava para casa de táxi. Ela sorriu.
Como era boa a vida em Juiz de Fora... Eu não dividia meus programas com nenhuma cafetina vagabunda... Era tudo meu!... Que vidão!... Ganhei tanta grana que até comprei um apartamentozinho legal e um carro zero Km... Mas as coisas boas não duram para sempre... Maldito dia que fiz programa com esse desgraçado... Essa merda do Clemente... Ele me comeu, me comeu e acabou conseguindo me convencer a deixar a putaria e casar com ele... Canalha mentiroso! Disse que eu ia ter vida de rainha, que nunca ia lavar um prato ou encostar a barriga num fogão... Cachorro fdp!... Ele me enganou e eu acabei nesta bosta de casa e de cidade!
Um carro desceu a rua, interrompendo os devaneios da velha. Seus olhos perseguiram a carroceria preta cintilante até que ela parasse diante do portão de uma casa próxima da esquina de baixo. Ela ficou a observar. Esboçou um sorriso.
Os clientes chegavam em carrões como este... Às vezes tinha uns pé-de-chinelo que a titia tinha que atender... Eram credores do cafetão da casa... Esses sujeitinhos de bosta tinham horário à parte, como forma de pagamento... Ah, como eu detestava trepar com aqueles sujeitinhos... Eles eram feios, pobres, fedidos e queriam umas coisas sujas, estranhas, ai que nojo!... E nós tínhamos que fazer, senão, senão... A porrada cantava e no dia seguinte era olho roxo, bunda roxa, corpo lanhado...
O portão da casa se abriu e uma jovem de calça jeans muito justa saiu por ele. O vidro da porta do carona desceu e a jovem, muito atraente, debruçou-se sobre ela.
Ah, só podia ser a filha da Glicéria...
O motorista encoberto pelos vidros escuros do automóvel não era visto, mas tinha uma visão privilegiada dos seios que lutavam por fugir do decote ousado. A velha espichou o olhar.
É ela mesma... Nenhuma novidade... Depois que o pai se separou da mãe e se mandou, a filha caiu na gandaia... E não poderia ser diferente... Perdeu o juízo e caiu na putaria... Também com aquele corpo... Ela até lembra como eu era... Cintura fina, os peitos novinhos, a cabeludinha apertada... Se essa menina não tivesse perdido o juízo poderia arrumar um bom casamento com aquele corpão... É, mas agora é tarde, caiu na lama, tá suja... A danadinha vai ficar pulando de cama em cama até acabar como eu, velha, gorda, jogada fora, sem homem para me foder... E tem tanto homem gostoso nessa rua, mas tá tudo casado e nem olham para mim... Sou carta marcada... Sabem que estou passada, como uva-passa... Merda!
A porta do carro se abriu e jovem de cabelos loiros pulou para dentro. O possante motor roncou, gritando quantos cavalos possuía. Em seguida, a carroceria preta cintilante disparou em retirada, desaparecendo na esquina.
E lá se foi a mais nova vagabundinha da rua... Que encontre juízo e arrume a vida enquanto é jovem... Por que senão acaba ficando como eu... Amanhã eu conto para uma meia-dúzia essa saidinha dessa garota...
Um carro subiu a rua e parou na porta da garagem. Clemente desembarcou, para logo depois passar uma das mãos na cabeleira grisalha e puxar as calças para cima. O dublê de conquistador de mulheres ajeitou o revólver na cintura. Fechou o carro e caminhou até a mulher. Parou ao lado dela, que continuava sentada e disse:
- E aí, vamos entrar? Tô com fome...
A velha ergueu os olhos e encarou o marido. Os olhares se confrontaram. Ela nada disse. Levantou-se e foi entrando de cabeça baixa. Dirigiu-se calada e cabisbaixa para a cozinha. Era hora de esquentar o jantar do marido infiel. Sabia que ele chegava da casa da amante. Aquilo lhe revoltava. Naqueles momentos, ela se enfurecia por estar gorda; pelos peitos grandes e caídos; pela repugnante e desconfortável gordura que lhe escorregava por sobre o cós da bermuda. A fúria aumentava porque mal conseguia realizar os movimentos do sexo. Sabia que se tornara apenas uma sombra da mulher sedutora que fora um dia, da mulher que brilhava na zona do meretrício. Sabia que não merecia tal humilhação.
Ele é um cachorro fdp!... Vai se deitar com a vagabunda duas ou três vezes por semana e acha que eu não sei... Quando policial aposentado vai ajudar em investigação?... Ele pensa que sou boba, que me tirou da rua e que por eu não ter estudo não tenho miolo... Desgraçado, me enganou, me obrigou a fazer dois abortos e eu nunca mais puder ter filho... Me deu uma vida de merda...
Robert Thomaz

Continua...

 
   
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