ZILDO GALLO

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A sonda New Horizons, o rebaixamento de Plutão, o rapto de Perséfone e o Tarô Mitológico


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Após quase uma década cruzando o espaço sideral, em julho de 2015, a sonda espacial New Horizons passou bem perto do planeta Plutão, a menos de 12.500 km, e passou a enviar imagens pormenorizadas suas. Desde que foi descoberto, em 1930, Plutão permaneceu bastante inacessível e pouco se sabia a seu respeito.

Os que conhecem um pouco de astronomia podem estranhar porque me referi, na época, a Plutão como um planeta e não como um planeta anão. Em 2006, os astrônomos resolveram rebaixá-lo da categoria de planeta por conta do seu tamanho, já que ele possui uma massa duas mil vezes menor que a da Terra. Na época considerei uma arbitrariedade e achei muita ignorância e desrespeito rebaixá-lo apenas pelo seu tamanho. Afinal de contas, determinar o que é pequeno e grande e instituir a grandeza como uma forma de avaliar se um corpo celeste é um planeta ou não trata-se de uma mera convenção.

No meu íntimo, acho que é um preconceito contra o que é pequeno. Seria assim como se a partir de um dado momento disséssemos aos nossos irmãos anões que eles não são mais humanos porque são pequenos e, doravante seriam considerados humanos anões. É uma comparação um tanto idiota, mas serve, vai lá... Todavia, não sou astrônomo e continuarei a tratá-lo como planeta e os meus irmãos anões sempre serão humanos, é óbvio. Na verdade, trata-se de uma violência do ponto de vista cultural. Lembro-me que no meu primeiro livro de geografia, de 1968, havia uma representação do sistema solar e lá estava o longínquo Plutão com sua órbita esquisita e sem os seus satélites, que só foram descobertos a partir de 1978, a partir da revelação de Caronte, que é o maior deles.

Plutão é pequeno mesmo, mas possui cinco satélites, enquanto que a Terra só tem a Lua, que, por sua vez, também é maior que ele. Seu maior satélite é Caronte (1), que possui quase a metade de seu tamanho. Sabemos muito pouco sobre Plutão, pois a distância é um obstáculo considerável e tamanha distância faz com que a sua órbita solar dure 248 anos terrestres. Pequeno, distante e misterioso, tudo isso justifica o seu nome: Plutão (Hades para os gregos), o deus do mundo dos mortos, que costuma aparecer com o rosto oculto por um elmo acinzentado. Será que ele se oculta para esconder a sua feiura? É claro que não, o elmo serve para torná-lo invisível aos mortais. Os gregos temiam Hades e acho que poucos seres humanos têm coragem para encarar face a face o senhor da morte. É bom que ele permaneça com o elmo sobre a cabeça.

A sonda New Horizons poderá desvendar segredos guardados à distância desde o seu descobrimento. No atual estágio da ciência na Terra, passar tão perto de Plutão, com tanta precisão, e enviar imagens e várias informações sobre a sua composição é um grande feito para a humanidade, para os reles mortais. Será que, devido à quantidade de conhecimentos já acumulados sobre o universo, os nossos astrônomos tornaram-se arrogantes ao ponto de acharem-se no direito de retirar um planeta do rol dos planetas, classificando-o como planeta anão, desconsiderando aspectos culturais importantes? Eles desrespeitaram a opinião de muita gente, inclusive de cientistas. A arrogância (hybris para os gregos) era considerada um grave desvio de comportamento na Grécia e era severamente punida por Nêmese, a deusa da justa medida para gregos e romanos.

Em 1930, quando o pequeno planeta foi descoberto pelo astrônomo Clyde Tombaugh, no Observatório Lowell, localizado no estado do Arizona (EUA), muitas cartas foram enviadas ao local com sugestões de nomes para o novo astro. Do outro lado do Oceano Atlântico, Venetia Burney, uma menina inglesa de 11 anos, sugeriu Plutão e, assim, em primeiro de maio de 1930 o planeta foi batizado como Plutão. Assim, manteve-se a tradição de nomear os planetas com nomes de deuses do panteão greco-romano. As crianças são mais intuitivas e, por isso, acabam por acertar mais que os adultos. Considero esse um caso de acerto.

Plutão faz parte da trindade greco-romana. Júpiter (Zeus para os gregos) é o senhor dos céus, Netuno (Posseidom) é o senhor dos mares e Plutão (Hades) é o senhor do mundo subterrâneo. Ocorre que, diferente dos seus irmãos e de vário outros deuses, que são muito belos, o que é normal entre os deuses, Hades era considerado bem feio e, além disso, deram-lhe a tarefa de cuidar do mundo dos mortos, nos subterrâneos da Terra. Entretanto, alguém tinha que cuidar das almas desencarnadas, não é nenhum demérito e o fato de ele ser feio é mera coincidência. Se os dois bonitões já tinham seus planetas, por que deixar Hades sem o seu? Venetia Burney fez justiça! Mesmo que seja pequeno e fique nos confins do sistema solar, fez-se justiça.

Apesar de sua feiura, Hades (Plutão), conseguiu casar-se com uma belíssima Deusa, Perséfone. Ela rivaliza em beleza com Afrodite (Vênus), a deusa do amor e da beleza. Perséfone é a deusa das ervas, flores, frutos e perfumes. É filha de Zeus e Deméter, a deusa da agricultura e das estações do ano. Criada no Olimpo, morada dos deuses, Ela foi sequestrada por seu tio Hades, que se apaixonou ao se deparar com tamanha beleza, e mudou-se, a princípio a contragosto, para o mundo inferior, onde residem as almas dos humanos desencarnados.

Reza a lenda que Demeter ficou inconsolável e se descuidou de suas tarefas: as terras tornaram-se estéreis e houve escassez de alimentos. Demorou para ela descobrir o paradeiro da filha e quando isso aconteceu ficou claro que Perséfone não havia rejeitado o tio feioso, o que não era fácil de ser aceito pela mãe. O indivíduo devia ser muito feio mesmo. Então, para acalmar a mãe possessiva, estabeleceu-se uma acordo: a filha passaria metade do ano junto a seus pais, no Olimpo, e o restante com Hades, nas profundezas. Na primavera e no verão, a natureza se embeleza e assim permanece para receber a bela Perséfone e, a partir do outono, com a sua descida para o mundo inferior, a natureza começa a adormecer. No inverno ela estará totalmente adormecida e, na primavera seguinte, ela acordará em flores, pois Demeter se alegrará com o retorno da filha querida. Imagino a seguinte fala da possessiva mãe, quando da sua chegada: Filhinha, você está cada vez mais linda; não consigo entender como você continua casada com aquele traste horroroso, enfiada no fundo da terra como uma toupeira. Desconfio que é daí que vem a má fama das sogras.

Em 1990, quando iniciei meus estudos sobre o Tarô, o primeiro baralho que me caiu às mãos foi o Tarô Mitológico (2), que se baseia na mitologia grega. Neste baralho, a carta da Morte é representada pela figura estranha e sombria de Hades, envolta numa túnica negra e com o rosto oculto sob um elmo cinzento. Trata-se de um arquétipo, uma imagem primitiva que habita as profundezas do inconsciente dos seres humanos. A morte é o desconhecido e o desconhecido sempre amedronta. A morte é dada a todos os mortais, não tem escapatória, e eles a temem com todas as forças do seu temer. Neste sentido, dá para entender o tamanho da força de Hades (Plutão) e, assim, fica claro que não se trata em absoluto de uma divindade inferior. O Tarô Mitológico faz justiça ao deus menosprezado pelos humanos (medo) e pelos astrônomos (arrogância).

No nível psicológico, Hades, configura-se como a finalização de ciclos, que pode ser, inclusive, o ciclo da vida. Na maioria das vezes, ele representa uma grande mudança, uma ruptura com velhos padrões e velhos caminhos. Todavia, para se iniciar um novo caminho, é necessário experimentar o luto, pois os términos sempre provocam alguma dor, às vezes muita dor. Hades, o Senhor da Morte, representa o estágio intermediário em que somos postos diante da irrevogabilidade da nossa perda antes de termos a percepção de que algo novo está para começar; ele é o momento exato do luto, aquele momento em que quase nada enxergamos, daí a sua invisibilidade.

No nível divinatório, enquanto jogo de tarô, a carta da Morte indica que algo precisa terminar. Se tal experiência será dolorosa ou não, dependerá dos recursos internos do indivíduo para aceitar e reconhecer términos. A carta pode sugerir a oportunidade de uma nova vida, desde que o indivíduo consiga abrir mão em definitivo da antiga; aí o livre arbítrio se coloca: abrir mão, não abrir mão... não é fácil desapegar.

As cartas não mentem jamais: mexer com Plutão (Hades) é coisa muito séria, os astrônomos deveriam (precisariam) saber disso. Aguardemos as notícias da New Horizons.

(1) Caronte trabalha para Hades como barqueiro, transportando as almas pelo rio Estige até o mundo inferior, mediante o pagamento em uma moeda de ouro. Nos funerais da velha Grécia, colocava-se uma moeda nos lábios do falecido para que ele pagasse a sua travessia, pois se tal não acontecesse, a sua alma ficaria vagando.

(2) SHARMAN-BURKE, J.; GREENE, L. O tarô mitológico: uma nova abordagem para a leitura do Tarô. São Paulo: Siciliano, 1988.

 
   
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