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O MARIDO E O JARDIM


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O MARIDO E O JARDIM
Tinha duas coisas que Maria Imaculada amava mais que tudo na vida: seu marido e seu jardim. Cuidava dos dois com muita dedicação. Os vizinhos admiravam suas roseiras e suas plantas, todas viçosas e muito bem tratadas. Com relação ao marido, era a esposa dedicada e fiel. Gostava de surpreendê-lo com mimos todos os dias. Não tinham filhos e toda sua atenção estava voltada para ele. Com relação ao jardim, ela era o que se chamava na época de “dedo verde”, alguém que tinha mão boa para a jardinagem.
Imaculada tinha a vida que sempre desejara. Seu marido e seu jardim ocupavam todo seu tempo. Era uma mulher de 52 anos, muita clara, rosto corado e olhos castanhos. Não era o que se podia chamar de atraente. Quando criança tivera um problema sério de atrofia e mancava ligeiramente de uma das pernas. Não trabalhava, mas recebia uma pensão militar deixada pelo pai. Ela procurava compensar a falta de atrativos físicos, com as muitas qualidades que julgava ter. O marido, por sua vez, era um homem bonito, mais novo que ela 10 anos. Alto e atlético,Wilson tinha um fã clube feminino na rua onde morava. Ele, no entanto, parecia só ter olhos para a esposa. No Banco, onde trabalhava como caixa, ele jamais participava das festas e saídas dos colegas. Sua vida era de casa para o trabalho e vice-versa.
A rotina do casal mudou subitamente quando a sobrinha de Imaculada, Renata, filha de sua irmã mais velha, veio morar com a tia por seis meses enquanto fazia um curso técnico na Ilha. Renata tinha 21 anos e era muito bonita. Alta, loura, de olhos verdes brilhantes, corpo escultural e muito simpática, ela logo se sentiu à vontade na casa dos tios. Imaculada preparou o quarto de hóspedes para a sobrinha, deu cópia da chave da casa e emprestou o carro.
Não demorou muito para a tia perceber que não gostava dos modos da sobrinha. Ela usava shorts muito curtos, decotes ousados e tomava café de camisola. Mas ela parecia tão inocente que Imaculada nada falou. Seis meses passariam logo. Os jovens são assim mesmo – pensava Imaculada resignada, enquanto cuidava do seu jardim.
Num sábado, pela manhã, ela observou o marido enquanto ele conversava com Renata. Não gostou do que viu. O marido estava muito falante e risonho. Ele não era assim. Renata sentada no sofá cruzava e descruzava as pernas enquanto ria também. Ao se aproximar dos dois, a conversa mudou e eles pararam de rir. Imaculada achou que estava sobrando. Naquele mesmo sábado á noite, no quarto do casal, ela criticou a sobrinha e pela primeira vez, depois de tantos anos de casada ouviu o marido gritar com ela. – Não enche. Dá para me deixar em paz? Ele virou para o lado oposto da cama e fingiu que dormia.
Os meses se arrastavam lentamente. Imaculada percebia que sua sobrinha seduzia seu marido em frente dos seus olhos. Wilson já não era mais tão gentil e por três vezes saíra com Renata para levá-la a uma festa. Voltaram tarde da noite. Do seu quarto, Imaculada ouvia as risadas. Que estariam fazendo? Por que ele não vem logo para a cama? Ouviu a voz da sobrinha, entre riso e deboche: - o que um homem bonito como você viu na minha tia? Você arranjava coisa muito melhor. Ela é velha. Não conseguiu entender a resposta dele, mas ouviu a sua risada. O coração saltava pela boca. Sua sobrinha, fazendo isso com ela na sua própria casa. Resolveu nada fazer. Entorpecida pelo ciúme e com medo de perder o marido, ela nem percebeu quando ele entrou no quarto para dormir. O dia amanhecia quando ela, finalmente, se levantou para fazer o café.
Tinha certeza que eles estavam tendo um caso. Deveria confrontá-lo? E se ele a deixasse? Ela não poderia suportar. Teria que fazer alguma coisa. Renata avisou a Tia que o curso demoraria mais tempo do que ela pensara. Na verdade, a duração seria de um ano e meio. Wilson disse que ela poderia ficar o tempo que precisasse. Imaculada, cuidando do seu jardim, nada respondeu. Se a sobrinha ficasse mais tempo, seu casamento acabaria. Desesperada, ouvindo a risada jovial de Renata e toda atenção que Wilson lhe dava, Imaculada, tomada de ciúmes, decidiu resolver a situação.
Numa manhã de outono, os vizinhos estranharam a atitude de Imaculada com relação ao seu jardim. Ela cavara muitas valas em torno das suas preciosas roseiras e agora, parecia que o jardim estava completamente diferente. Não fazia sentido aqueles buracos no jardim. Tão bonito o jardim de Imaculada! Ela respondeu a pergunta de um curioso: - Vou plantar mudas exóticas. Vai ficar mais lindo ainda.
Renata não tinha voltado para casa desde a última sexta-feira. Já era manhã de segunda-feira e ninguém sabia do seu paradeiro. Wilson perguntou a Imaculada se ela sabia onde Renata estava. Imaculada, cavando o jardim, deu de ombros. Wilson se aproximou dela e de repente viu uma mão humana de que parecia ser de uma mulher em um dos canteiros abertos recentemente. Olhou para a esposa. Imaculada baixou os olhos. No rosto dele, o mais profundo horror; parecia não acreditar no que via. Ela, de joelhos na terra, permanecia imóvel. Ele olhou para ela outra vez, como que pedindo desculpas pelo que iria fazer. Puxou o celular do bolso e ligou para a polícia.
Tinha duas coisas que Maria Imaculada amava mais que tudo nessa vida: seu marido e seu jardim.
HISTÓRIAS DA ILHA
Dionildo Dantas

 
   
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