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DOS TEMPOS DOS COMBOIEIROS


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Quando chegavam a uma fazenda pediam rancho. Os pesados costados eram distribuídos pelo alpendre, numa espécie de rodilha. Os animais (a maioria jumentos) eram atados a árvores e cercas. As mochilas com ração eram providenciadas. Após isso, os animais eram levados ao açude, rio, barreiro... De volta, eram peados e soltos no entorno da casa. A maioria ficava por ali. Mas havia os mandingueiros. Ouvi relatos de que muitos sumiam, se enfiavam em moitas e até em buracos. Era o medo da (longa) canseira. De manhã os homens de ferro - das tropas zuadentas de animais - partiam pra próxima cidade. Nas estradas a poeira subia. E durante o dia todo negociavam, suavam, cansavam, sofriam..
OS COMBOIEIROS do meu tempo...
Passavam nas ruelas e vilas fazendo a poeira levantar. Os cacos dos animais provocam uma zoada danada. Mas também anunciavam a chegada de novidades. Quando os jegues e burros paravam e os negócios começavam, subia para o ar o cheiro de peixe novo. E como era bom comer uma sardinha bem assada com farinha de mandioca molhada. Nos tempos difíceis, como se dizia naqueles tempos, era comidão. A farinha da praia também era muito apreciada e disputada pelas donas-de-casa e pequenos negociantes. Entre um negócio fechado e outro, claro, muita conversa e anedotas mil!
OS COMBOIEIROS do meu tempo eram homens valentes, corudos, de vida árdua... Partiam da Ibiapaba rumo às praias. Senador Sá, Uruoca, Morrinhos, Bela Cruz, Cruz, Acaraú e Santana eram seus destinos. Alguns esticavam até Camocim e Chaval. Levavam rapadura, doce de buriti, bolo manzape, pinga... Mas levavam também muita esperança de voltar pra casa com um bom apurado e muito peixe seco. Além de sal e farinha praiana. Enquanto caminhavam iam pedindo dormida nas localidades de beira de estrada e espalhando boas conversas e anedotas. Nos alpendres e até embaixo de árvores, patrocinavam belas resenhas... Oralidade farta e benfazeja. Coisas que o tempo levou, diante da acefalia oficial, que pouco ou nada registrou. Infelizmente!
PARTE 2
Das longas viagens vinham sedentos por descanso e carinho da família. Os dias fora de casa os deixavam arriados. A luta era de moer ossos. Os animais então nem se fala. Esses ainda tinham nas costas e no resto do corpo as marcas das cangalhas, da sela e do comprido e malvado chicote chamado macaca. Feito de relho ou de outro tipo de corda, fazia cortes e provocavam dores terríveis. Portanto, todos mereciam um bom descanso. Após uma parada para resolver problemas de casa, dos animais e da pequena agricultura, tudo começaria de novo. Mais viagem, negócios; novas histórias de vida, de famílias deixadas pra trás (muita vezes só com a água do pote) e de dor.

 
   
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