Efuturo: OLVIDO

OLVIDO

OLVIDO

começo a esquecer
e não adianta anotar:
olvida a lembrança
o que foi anotado!
envelheço de mim,
como um pobre coitado...

se escrevo um verso,
só disfarço o cansaço.
não existe o remédio
que me foi receitado:
desnascer-me de mim,
de pé ou deitado...

o pensar já me pesa
e o poema é um fardo.
começo a olvidar
o que sabia de mim:
o que estava anotado
não me foi receitado...

mas o poema insiste
em fazer-se lembrar...

o remédio é um fado
que disfarça o esquecido.
onde achar o passado
se o que fui está perdido?

começo a escrever
e não existe cuidado:
esbarro na palavra
que tenho procurado,
e não adianta chorar
a letra derramada.

a poesia é em mim
o próprio delírio!
pras vistas cansadas
que tenho na alma,
a busca dos versos
é meu único colírio...

o poema reclama
do peso da idade.
envelhecem também
o vapor e a umidade:
disfarço em lágrima
o que chamam saudade...

deitado eu esqueço
o que de pé anotei.
sem fim ou começo,
quem sou já não sei...

sem receita ou remédio
meu fardo é meu tédio.

não adianta ajuntar
os meus cacos no chão:
o que resta perdido
já fora esquecido.

disfarçando o sofrer,
começo a esquecer!
o bem mal me quer?
onde anda meu trevo?
o que ontem escrevi,
já não reconheço:
não recordo o que escrevo,
apenas esqueço.

lembrar-me dos versos
em vão eu aguardo...
sem receita ou remédio,
o enfado é meu fardo.

não vivo nem vegeto:
desaconteço.
por dentro de mim,
sumiu minha história.
não me resta memória...

já sem poesia então
Senhor eu lhe peço:
esquecido meu canto,
num canto envelheça.